4. BRASIL 5.6.13

1. A FATURA CHEGOU
2. O PRIMEIRO PASSO DE CAMPOS
3. A DERRAPAGEM DA CAIXA
4. AS MAMATAS DO PADRINHO DE FELICIANO
5. O QUE SERIA POSSVEL FAZER NO LUGAR DE PAES?
6. O MENESTREL DO MINISTRO

1. A FATURA CHEGOU
Dificuldade do governo em negociar com o Congresso fez Dilma Rousseff criar uma relao de dependncia com um grupo seleto de polticos, que agora cobra a conta da vitria nas votaes de interesse do Planalto
Izabelle Torres

A presidenta Dilma Rousseff nunca teve talento e disposio para discutir pedidos e picuinhas dos polticos. Avessa  troca de favores e defensora do jogo bruto quando o assunto  chantagem parlamentar, Dilma tem se tornado vtima da falta de habilidade da prpria articulao poltica. As negociaes de ltima hora em torno de medidas provisrias prestes a perder a validade e a dificuldade em fazer o Congresso votar projetos relevantes apenas com base no mrito esto tornando a presidenta refm de um seleto grupo de aliados capazes de socorrer o governo e mudar o desfecho das votaes. Como se viu na Medida Provisria dos Portos, essa ajuda de ltima hora pode funcionar. A questo  que aliados desse tipo tm um custo alto. Em troca do apoio, cobram cargos, distribuio de poder, liberao de emendas  que somam R$ 7,1 bilhes  e at interferncias em decises do Executivo que ainda esto sendo discutidas nos gabinetes ministeriais.

O presidente da Cmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN),  um dos que apresentam a fatura. Alm de ter sido um fiel escudeiro nas recentes votaes, hoje ele tem nas mos pedidos de abertura de 15 CPIs contra o governo e a misso de domar uma parcela do PMDB disposta a se bandear para a oposio. Em troca da manuteno da fidelidade quase canina ao governo, Henrique Alves quer que Dilma Rousseff no leve adiante o plano de desativar o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs), cabide de empregos para seus afilhados polticos. O deputado trabalha pela reestruturao do rgo e pelo aumento dos recursos destinados a ele e, claro, para manterse  frente das indicaes da diretoria. Alves tambm avisou ao vice-presidente da Repblica, Michel Temer (PMDB-SP), que quer ter a garantia de que, no Rio Grande do Norte, Dilma Rousseff subir ao palanque onde ele estiver em 2014. 

 A campanha do prximo ano tambm  uma das prioridades do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que busca apoio para disputar o governo de seu Estado natal. Durante a votao da MP dos Portos no Senado, ele driblou o regimento, fez acordos e garantiu a vitria para o governo. Mas avisou que havia chegado a seu limite e, na semana passada, mostrou que falava srio. Recusou-se a debater outra medida provisria estratgica, que reduz em 26% a conta de luz, com o argumento de que a proposta no chegou aos senadores com prazo de sete dias para ser lida. A deciso levou o Planalto a anunciar um decreto para garantir que o desconto no se encontre sob ameaa. 

 Ciente do prprio poder, fruto de um pacto de dependncia mtua entre o Planalto e o Congresso, Renan trabalha no presente para decidir o prprio futuro. J de olho na realidade ps-eleitoral de Alagoas, empenhou-se numa causa que mistura o interesse geral e o particular. Tornou-se um dos lderes na luta pela correo do indexador das dvidas dos Estados brasileiros, em grande maioria asfixiados por regras financeiras que amarram investimentos e obras de infraestrutura. Renan batalha para trocar o IGP-DI pelo IPCA e fixar os juros em 4%, em vez de 8%, como acontece hoje, processo que fez a dvida de Alagoas crescer 120% em apenas dois anos. uma distoro que precisamos corrigir no dilogo com o governo, diz ele. Caso venha a realizar a mudana, Alagoas passaria a ter uma folga de caixa estimada em R$ 300 milhes por ano. Se, por um motivo qualquer, Renan desistisse de concorrer ao governo do Estado, poderia colocar Renan Filho para encabear uma chapa  sempre com o crivo do Planalto. 

 As trombadas e os conflitos do governo Dilma tambm abriram espao para lderes governistas ocasionais, cuja atuao nas negociaes foi to bem-sucedida quanto deve ser dispendiosa em sua contrapartida. Embora tenha sido destitudo, de forma humilhante, por Dilma Rousseff, o senador Romero Juc (PMDB-RR) arregaou as mangas, levantou a cabea e, na prtica, exerce as funes de lder governista de fato no Senado  funo que o lder formal, Eduardo Braga (PMDB-AM), no demonstra o menor apetite para exercer, tamanhas so as demonstraes de falta de autonomia e desprestgio no Planalto. Graas a Juc, a presidenta desistiu da ideia de atropelar o Congresso e regulamentar por decreto a PEC das Domsticas.

Mas Juc no quer apenas ter seu papel de legislador respeitado. Ele tem interesses bem mais ambiciosos. Sua filha  dona de empresa Boa Vista Minerao, que aguarda autorizao do governo para explorar ouro em terras indgenas. No por acaso, o senador tem pedido para participar diretamente das discusses sobre o marco regulatrio da minerao, que ser votado no prximo ms. 

 O apoio e a dedicao do lder petebista Gim Argello (DF) nas votaes de interesse do Planalto tambm tero seu custo. Depois de fazer corpo a corpo em busca de acordos para votar projetos e medidas provisrias, Gim j avisou que quer um ministrio para chamar de seu. Logo depois da votao da MP dos Portos, ele conversou com a ministra Ideli Salvatti e disse que o PTB espera a indicao do senador Joo Vicente Claudino (PI) para o Ministrio da Cincia e Tecnologia. Avisou que pretende dizer isso pessoalmente  presidenta Dilma. O PTB  um fiel aliado e espera por espao, disse ele. 

 A lista de parlamentares com poderes e cacife para apresentar demandas especficas  ainda mais extensa. Inclui polticos como o escanteado Danilo Forte (PMDB-CE), que vai relatar a Lei de Diretrizes Oramentrias em plena discusso sobre oramento impositivo, considerado uma ameaa ao governo. Forte quer retomar o poder de indicaes na Funasa. As dificuldades de agradar e negociar com os prprios aliados vo aumentando a fatura que Dilma ter de pagar aos bombeiros das crises palacianas. Se continuar no descompasso atual, a conta ficar salgada demais.


2. O PRIMEIRO PASSO DE CAMPOS
Levantamento feito por ISTO nos diretrios estaduais e executiva nacional do PSB mostra que socialistas apoiam a candidatura de Eduardo Campos ao Planalto
Alan Rodrigues

ACLAMADO NO PSB - O governador Eduardo Campos j conquistou 85% do partido

Manh da segunda-feira 27, Mar Hotel, praia da Boa Viagem, Recife, Pernambuco. Passava das 10 horas quando o governador do Estado, Eduardo Campos, entrou em uma sala de reunio onde cerca de 300 militantes socialistas o esperavam para o 1 Encontro de Vereadores da legenda. O objetivo do evento era frugal. Envolvia a troca de experincias no Legislativo. No entanto, o tom eleitoral tomou conta dos discursos. Adesivos e panfletos exaltando o nome do socialista para presidente da Repblica foram distribudos e a reunio transformou-se em palanque para Eduardo Campos. Ovacionado com gritos de Brasil para a frente, Eduardo presidente, Campos abriu um largo sorriso. No tem mais volta, ele ser candidato, afirma o presidente do PSB em So Paulo, deputado Mrcio Frana. Se a candidatura ser mesmo oficializada em 2014, o tempo se encarregar de dizer. O primeiro passo, porm, j est dado. 

 Segundo levantamento feito por ISTO entre os diretrios estaduais do partido e a executiva nacional, o governador j conquistou o apoio da maioria do PSB. A enquete mostra que os militantes e a direo do partido querem mesmo que Campos seja o candidato do partido  sucesso de Dilma Rousseff. No temos nada contra o governo Dilma. Alis, votamos com ela em 95% dos casos, mas chegou a nossa hora de tentar fazer mais e melhor, defende Frana. O nome de Eduardo est maduro. O momento  agora, faz coro o deputado federal Jlio Delgado, de Minas Gerais. Dos 35 representantes da executiva nacional do partido, 22 so a favor da candidatura prpria (ver quadro). Entre os diretrios estaduais, a vitria a favor da candidatura de Campos ao Planalto em 2014  ainda mais avassaladora  85% dos dirigentes so favorveis ao voo solo. O nome do governador Eduardo Campos representa algo diferente. Estamos com ele, entende Severino Arajo, presidente do diretrio paranaense.

Alm da contabilidade favorvel, outro sinal de que todas as arestas j esto aparadas no PSB foi o jantar na tera-feira 28 entre Eduardo Campos e o ex-ministro Ciro Gomes. Crtico da candidatura prpria at a semana passada, Gomes j diz que ir apoiar uma eventual postulao do pernambucano caso a maioria do partido decida lan-lo. Se meu partido tiver candidato, depois que fizer minhas ponderaes, vou acompanhar o partido, disse o ex-ministro. Ciro Gomes aponta como incoerncia dos socialistas disputar o Planalto na condio de sigla aliada ao governo. Para resolver a questo, a cpula do PSB j acertou que entregar os cargos na administrao federal em setembro. A entrega dos cargos nos libera para fazer um discurso mais assertivo, entende Mrcio Frana.

MATERIAL DE CAMPANHA -  Socialistas distriburam santinhos em favor da candidatura de Eduardo Campos  ao Planalto em encontro de vereadores na segunda-feira 27, no Recife.

Dado o primeiro passo, que  a conquista do apoio interno, os socialistas trabalharo at o fim do ano para costurar as alianas. Em So Paulo, por exemplo, o PSB dever se aliar  reeleio do governador Geraldo Alckmin, indicando um vice socialista  chapa. A disputa  estadual, mas no apoio a Alckmin est embutida uma estratgia nacional. O principal objetivo  tentar enfraquecer o palanque em So Paulo de Acio Neves, pr-candidato  Presidncia e, portanto, adversrio em potencial de Campos. A 16 meses das eleies, o cenrio ainda pode mudar por completo, mas os especialistas eleitorais so unnimes em afirmar que, entre os nomes dos pr-candidatos colocados at agora para a disputa em 2014  Acio Neves (PSDB), Eduardo Campos (PSB) e Marina Silva (Rede) , s existe espao para um ou no mximo dois candidatos, j que as previses tambm do como certo que Dilma estar no segundo turno. Nessa lgica, Campos no tem muito a perder. Aos 47 anos, ele, na pior das hipteses, ter a imagem conhecida nacionalmente. Hoje, o governador pernambucano figura com 6% de intenes de voto nas pesquisas eleitorais, mas s  conhecido por 20% do eleitorado nacional. So nesses ndices que ele se apoia para decolar em 2014.


3. A DERRAPAGEM DA CAIXA
Banco se enrola em contradies sobre as falhas tcnicas no programa Bolsa Famlia, enquanto o governo investiga o que provocou a corrida desenfreada para sacar o benefcio
Izabelle Torres e Josie Jeronimo

LAMBANA - Dilma admitiu a necessidade da reviso de processos e o presidente da Caixa, Jorge Hereda, teve de pedir desculpas 

Duas semanas depois que meio milho de pessoas fizeram fila em terminais bancrios para limpar as contas-benefcio do Bolsa Famlia,  os dirigentes da Caixa Econmica Federal ainda no conseguiram oferecer explicaes consistentes sobre o que aconteceu. No plano tcnico, o banco foi capaz de apresentar trs verses contraditrias em apenas 72 horas. No plano poltico, autoridades do governo tambm ajudaram a aumentar a confuso, denunciando  ainda sem comprovao  uma conspirao para desmoralizar o programa Bolsa Famlia.  A ministra Maria do Rosrio, da Secretaria de Direitos Humanos, chegou a identificar uma ao da oposio.  

  A presidenta Dilma Rousseff reconheceu que houve falhas e se comprometeu a corrigi-las. Por envolver aspectos tcnicos, que deveriam ser amplamente conhecidos por seus dirigentes,  as falhas de procedimento que envolveram os saques so particularmente constrangedoras.  Primeiro, a Caixa tentou negar que tivesse ocorrido qualquer anormalidade. Depois, disse que liberou dinheiro para evitar tumultos. Por fim, atribuiu  atualizao de segurana no sistema a liberao de saques fora do prazo oficial. A contradio foi logo descoberta e o presidente da Caixa, Jorge Hereda, teve de pedir desculpas pblicas em nome da instituio. O banco responde pelo mais ambicioso programa social brasileiro, assegurando um conforto mnimo a 13,4 milhes de  famlias que residem no mais baixo patamar da distribuio de renda. A direo da Caixa ainda deve respostas a duas perguntas elementares. Qual foi a falha tcnica que liberou R$ 152 milhes em saques fora do calendrio padro? Houve influncia poltica no episdio?

 Entre as poucas certezas disponveis, sabe-se que o banco estava empenhado em realizar uma varredura para detectar fraude de duplicidade de pagamento em 700 mil registros. O mtodo de verificao pode ter deixado o sistema vulnervel. Eu sou bancrio, sei como funciona. Quando tem uma varredura geral  criada uma trava que pode afetar todo sistema. Mas acho que s boatos boca a boca no teriam chegado a essa dimenso, afirma o senador Wellington Dias (PT-PI), funcionrio de carreira da Caixa.

O mais curioso  que o episdio encerrou-se sem que nenhum beneficirio do programa Bolsa Famlia fosse financeiramente prejudicado. Nenhum cliente deixou de ser atendido e, cedo ou tarde, os cidados que, na confuso, receberam benefcios que no deveriam tero de ressarcir a instituio. Sem a mesma grandeza, episdios comparveis j ocorreram no passado. Em 2010, o banco repassou indevidamente  nada menos do que R$ 153 milhes para a conta de 82.595 famlias beneficirias do programa Bolsa Famlia. Todas foram localizadas e iniciaram um programa de reembolso, dividido em 27 parcelas que comearam a ser pagas a partir de maro de 2011.

 O principal prejuzo da operao mais recente envolve a credibilidade da instituio, que ser afetada no s pelo episdio em si, mas pelo acmulo de explicaes sem cabimento. Semanas antes das cenas de batalha em suas agncias, a cpula da Caixa se reuniu para discutir planos de modernizao do banco, com enxugamento de gastos com pessoal, poltica de agilidade no atendimento e mudanas nos postos de chefia intermediria e no primeiro escalo. Como sempre acontece nessas horas, o vazamento das novas medidas gerou insegurana entre funcionrios, acompanhada de rumores a respeito de uma disputa de poder entre o vice presidente, Jos Urbano Duarte, responsvel pelos principais programas da Caixa, o Bolsa Famlia e o Minha Casa, Minha Vida, e o presidente, Jorge Hereda.  Conforme Antnio Abdan Teixeira, funcionrio da Caixa e dirigente do Sindicato dos Bancrios, o episdio mostrou no mnimo uma falta de sintonia. 

A pergunta principal do episdio consiste em saber se houve manipulao de uma falha tcnica  feita por quem e a servio de quem. O governo est convencido de que  possvel dividir o caso em duas partes: antes e depois das 13 horas do sbado 20 de maio. Na primeira metade, ocorreram saques de vulto, mas nem to grandes assim. Chegaram a R$ 650 mil naquele dia, contra R$ 850 mil no ms anterior. Depois das 13 horas, teve incio um salto vertiginoso nos saques, acima de qualquer movimentao razovel. Convencido de que apenas uma mobilizao poltica pode explicar essa parte do problema, o governo determinou que a Polcia Federal fizesse uma apurao cuidadosa e profunda nos indcios e suspeitas que encontrou. Convencido de que  prudente evitar opinies sem base e acusaes sem prova, a Polcia foi avisada de que s ser autorizada a falar quando todas as provas estiverem  mo. At l, a orientao  manter silncio absoluto.  


4. AS MAMATAS DO PADRINHO DE FELICIANO
Mesmo sem ser deputado, o pastor Everaldo Pereira utiliza o gabinete da liderana na Cmara para fins pessoais e partidrios 
Josie Jeronimo

Todo-poderoso no PSC, mas desconhecido dos eleitores, o vice-presidente do partido, Everaldo Pereira, ganhou notoriedade ao apadrinhar o polmico Marco Feliciano na Comisso de Direitos Humanos da Cmara. Para confirmar seu poder, h duas semanas, Pereira conseguiu, com o apoio de pastores evanglicos, ser lanado candidato do PSC  Presidncia da Repblica nas eleies de 2014. Se a candidatura resistir at l, ningum sabe. Mas, antes mesmo da campanha, ele j est enrolado e pode ser obrigado a prestar explicaes  Justia por utilizar a estrutura da liderana do PSC na Cmara para fins pessoais e partidrios. Em situaes semelhantes, o Tribunal de Contas da Unio recomenda que o dirigente de um partido empregue recursos do fundo partidrio  o PSC recebe R$ 500 mil por ano  em vez de se valer de instalaes e benesses da Cmara. Mas o pastor desdenha essa orientao. Usa a sala como se fosse ele o deputado que lidera o partido e se vale cotidianamente dos servios de motoristas e assessores.

MORDOMIAS - O vice-presidente do PSC Everaldo Pereira requisita assessor da Cmara at para comprar roupas e pedir comida

Everaldo Pereira costuma desembarcar em Braslia na tera-feira de manh e desde o primeiro minuto j tem um motorista, custeado pela Cmara,  sua disposio no aeroporto. Sob orientao de Pereira, funcionrios que deveriam estar encarregados de matrias legislativas so mobilizados para elaborar textos e at imprimir panfletos de divulgao de atividades partidrias externas ao Congresso, como os do encontro do PSC Mulher. O evento  coordenado pela esposa de um assessor legislativo do PSC. O casal Adolfo Lcio e Denise Assumpo recebe no total R$ 19 mil da Cmara, mas trabalha para Pereira na maior parte do tempo. Por R$ 10,4 mil mensais, a Cmara paga Adolfo Lcio para ser uma espcie de faz-tudo de Pereira. Servidores contam que o funcionrio  requisitado at para comprar roupas e providenciar alimentao para aplacar a fome do pastor. Outros funcionrios do gabinete, com salrios de R$ 8,6 mil, so escalados para emitir bilhetes areos.

O TCU condena o uso da estrutura do Congresso para quem no tem cargo eletivo

A ascendncia de Pereira sobre o gabinete da liderana na Cmara constrange o lder de fato eleito pelos correligionrios, deputado Andr Moura (PSC-SE). Quando Pereira convocou coletiva para anunciar a permanncia de Feliciano  frente da comisso, Moura  bastante irritado  decidiu nem aparecer como sinal de sua contrariedade. A assessoria de Pereira, que tambm  a assessoria paga pela liderana a um custo de R$ 23 mil, foi procurada e respondeu que as dependncias fsicas da Casa so utilizadas pela bancada de acordo com as normas administrativas previstas no Regimento Interno da Cmara. Os rgos de controle externo, porm, condenam comportamentos como o de Pereira. Em 2008, o TCU considerou irregular a utilizao da estrutura do Congresso para atividades pessoais e partidrias, pois os partidos polticos so entidades privadas.


5. O QUE SERIA POSSVEL FAZER NO LUGAR DE PAES?
Desrespeitado e ofendido, o prefeito do Rio de janeiro reage dando um soco no provocador. Com isso, abre uma discusso: a atitude pode prejudic-lo ou vai humanizar Eduardo Paes como um cidado comum capaz de indignar-se e at perder a cabea
Michel Alecrim, Wilson Aquino, Cludio Dantas Sequeira e Joo Loes

REAO HUMANA 
 O prefeito Eduardo Paes pediu desculpas pela reao que  teve depois de ser seguidamente ofendido por Botika

A prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), no segue o roteiro que costumam traar as autoridades polticas. Ele gosta de andar sem seguranas, mantm o hbito de pedalar pelas ruas e no abre mo de frequentar restaurantes, cinemas e casas de shows. Como qualquer cidado, Paes enfrenta filas e por vezes  at abordado por flanelinhas. Na noite do sbado 25, o prefeito acabou sendo vtima desse estilo despojado. Na companhia da mulher e de dois casais amigos, Paes foi ao Yum, um restaurante japons no bairro do Horto, novo point gastronmico da cidade. Quando se dirigiu  calada para fumar, foi abordado pelo msico Bernardo Botikay. Segundo testemunhas, Botika, como  conhecido, mais de uma vez xingou o prefeito de bosta e de vagabundo, entre outros adjetivos. Diante das ofensas, Paes, 43 anos, no se conteve e acabou socando o artista. A briga s no prosseguiu dada a interferncia da turma do deixa disso e tambm dos seguranas. Na manh seguinte, por intermdio de uma nota distribuda  imprensa, o prefeito resumiu o episdio e pediu desculpas  populao por sua reao intempestiva: Apesar da agressividade eu no poderia ter reagido como fiz. Na tera-feira 28, o msico foi  delegacia e retirou a queixa que fizera contra Paes.

 Juridicamente, Botika encerrou o caso ao retirar a queixa contra o prefeito. Para Eduardo Paes, no entanto, fica uma questo em aberto: qual pode ser a consequncia poltica de seu gesto? O cientista poltico Ricardo Ismael, professor da PUC-Rio, lembra que na democracia os protestos mais eficientes so baseados em argumentaes, mas que a reao do prefeito tambm pode trazer resultados negativos, uma vez que opositores podero vir a tratar o tema como uma prova de despreparo para o exerccio da funo pblica. Alm disso, concorrentes de m-f podero vir a estimular que novos atos de provocao venham a ocorrer com o intuito de desestabilizar o prefeito. A crtica poltica pode muitas vezes trazer resultados, desde que consiga mobilizar as pessoas. Mas a agresso fsica nunca se justifica, analisou o professor Ismael. O cientista poltico Jorge Alberto Saboya, professor da UERJ, tambm acredita que o episdio possa trazer consequncias negativas para o prefeito. Mandatrios, mesmo em seus momentos privados, continuam respondendo por sua funo pblica. Quando o prefeito deixa de ser prefeito? S quando acaba o mandato, avalia.

Apesar da tendncia apontada pelos especialistas, a nota emitida por Eduardo Paes pedindo desculpas  populao e detalhando as agresses verbais a que foi submetido pode, no entanto, reverter esse quadro. Da forma como se posicionou, o prefeito ficou mais humanizado do que j era e isso pode aproxim-lo dos eleitores, desde que episdios semelhantes no voltem a ocorrer. Quem j enfrentou insultos de algum chato num local pblico sabe o que o prefeito passou e por que ele perdeu a pacincia, diz o novelista Agnaldo Silva. 

 Se  positivo que uma autoridade se comporte como os cidados comuns, mas  negativo que um prefeito reaja como um simples mortal, o que ento poderia fazer Eduardo Paes depois de ser seguidamente ofendido, na frente de sua mulher e dos amigos? A resposta  dada pelo experiente advogado Arthur Lavigne. O prefeito deveria chamar a polcia e deter o msico, que seria levado  Justia por crime de injria, afirma. O problema  que o mundo poltico prepara armadilhas que o universo jurdico no pode desarmar. Certamente o msico Botika estava apenas em busca de alguns minutos de fama e os conquistou, ou a servio de algum opositor. 


6. O MENESTREL DO MINISTRO
Advogado paranaense e dubl de cantor, Edson Abdala conta como criou a msica em homenagem ao amigo Lus Roberto Barroso, indicado ao STF
Pedro Marcondes de Moura

AMIGOS H 17 ANOS - Novo ministro do STF, Lus Barroso orgulhou-se da homenagem: Foi feita sob medida, disse

Ao ser indicado pela presidenta Dilma Rousseff ao Supremo Tribunal Federal na quarta-feira 22, o advogado Lus Roberto Barroso ganhou os holofotes. Chamou a ateno em seu perfil o gosto musical ecltico, que vai de Chico Buarque a Beethoven, passando por Edith Piaf, Ana Carolina e Elvis Presley. Porm, no so apenas nomes consagrados da msica que alimentam a alma de Barroso. Em seu blog, o futuro ministro mostra admirao tambm por talentos desconhecidos do grande pblico, como o paranaense Edson Abdala, de 54 anos. Advogado criminalista e professor licenciado da PUC do Paran, ele  criador da cano Um s Corao. Ao ritmo da bossa nova, a msica se prope a retratar a histria e os feitos de Barroso tanto no meio jurdico como na vida pessoal. Ela pode ser ouvida entre os 105 posts publicados na pgina pessoal do escolhido por Dilma para o STF. Barroso escreveu sobre a cano: Feita sob medida, com os exageros e o colorido de uma amizade antiga, que une nossas famlias. Abdala ofertou a msica como um presennte de Natal para Barroso. Ela revela mais sobre ele do que sobre mim. Mas  um charme e alegrou-me o corao, concluiu o ministro. Abdala no lhe poupou elogios, sapecando versos como estes: Constitucionalista, verdadeiro alquimista do Direito Mundial, Seja em Harvard, Yale, aventura sem igual. E ainda por cima tambm canta e declama um bom fado tropical, diz o refro.

 A ISTO, Abdala conta que criou a cano em dezembro de 2011 antes da festa de fim de ano em que recebeu o ministro em sua casa. Foi muito rpido. Ficou pronto em poucos dias. A melodia veio praticamente em uma inspirao s, explica. A letra tambm no demorou muito, mas eu sou bem parnasiano, acredita. Apesar de no se considerar um profissional, Abdala toca violo e possui mais de 40 composies prprias. A maioria  de cunho religioso, porm h sete homenageando amigos, como Barroso e o cantor Toquinho. Alm de bossa nova, ele compe em outros gneros. Possui at uma tarantela. De acordo com ele, o gosto pelas notas veio com os pais e foi aprimorado pela irm. Eu desde novo ouvia muita bossa nova e no os Beatles ou o i-i-i.

Abdala conheceu Lus Roberto Barroso em 1996, durante um congresso na PUC do Paran. Desde ento, passaram a se encontrar ao menos uma vez por ano. De acordo com o menestrel do ministro, pesou na escolha da bossa nova como gnero da msica-homenagem a combinao de duas caractersticas do novo ministro apontadas no incio da letra da msica: carioca da gema, habitu de Ipanema. Tem de haver um casamento entre letra e msica. E a do Barroso pedia algo leve, explica Abdala. A participao do amigo, professor como ele, em encontros acadmicos tambm foi aclamada na cano: nos congressos detona, no se deixa na lona. Pacincia natural. 

Edson Abdala diz ter recebido a notcia sobre a indicao de Barroso ao STF pelo filho, estudante de direito, na quarta-feira 22. Para no incomodar o colega, resolveu no telefonar. Apenas enviou um e-mail parabenizando-o. Ele est em plena condio, tem independncia e capacidade intelectual para ocupar a funo, torna a elogiar. Questionado se pretende fazer uma nova letra para a cano agora que seu amigo estar no Supremo, Abdala rejeitou, de pronto, a ideia. Eu no fiz a cano para o ministro do Supremo, fiz para o meu amigo. Minutos depois, porm, no descartou a hiptese de atualizar a verso: Pode acontecer, quem sabe. Essas coisas ocorrem naturalmente. A gente nunca planeja.
